Capítulo 15
Noite, 1983.
Fausto (fura o dedo indicador e pinga 12 gotas de sangue sobre a escritura do prédio) – 1, 2, 3 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12. (lambe o dedo) Agora o momento mais aguardado: a assinatura dos senhores.
Baile de máscaras para comemoração dos 13 primeiros andares de “Edifício 256”.
Edna – (falando alto e sozinha) Não acredito que eu perdi a porra da credencial!
Convidados, fotógrafos, jornalistas e o povo impedido de entrar aglomeram-se em frente à entrada do prédio enfeitado com muitas luzes e um belíssimo tapete vermelho.
Edna – (tentando chamar a atenção dos seguranças. melodramática) Ai, minha credencial! Ai de mim! Como é que eu vou entrevistar o homem agora, meu Deus?
Uma limusine estaciona em frente ao prédio. Mabel, esposa de Fausto, desce do carro ostentando um longo vestido preto e uma cachorrinha no colo. Os fotógrafos avançam e a cercam.
Edna – (berra) Mabel! Mabel!
Mabel - (para os fotógrafos) Sai urubu, sai! Não quero tirar foto! Odeio flash!
Edna – (pensando alto) Que mulher chique! Um dia eu ainda vou ser igual a ela.
A babá desce do carro com o bebê de Fausto e Mabel no colo. Diante dos flashes, exibe-se e dá tchauzinho.
Mabel – Chispando! Chispando!
Edna – (corre até Mabel) Dona Mabel! Dona Mabel! Só uma palavrinha, por favor.
Mabel – Só uma?
Edna abre o sorriso.
Mabel - Molambo! (entra no prédio)
Edna – Ô, Dona Mabel!
Genaro, o segurança – (barra Edna na entrada) – Cadê a tua credencial?
Edna – Ai moço, eu esqueci a credencial dentro do carro!
Genaro – Vai buscar.
Edna – Só que roubaram o meu carro, acredita? Muito azar, né!
Genaro – Muito.
Edna – Ai moço, por favor! Não faz essa cara. Eu perdi a minha credencial, mas eu preciso muito trabalhar. Eu não fiz uma entrevista até agora por causa da porra desse crachá, me deixa entrar. Por favor!
Genaro – Infelizmente, sem a credencial, não dá. Doutor Fausto permitiu apenas a entrada de 256 convidados.
Na cozinha da festa.
Manoel (conferindo o banquete) – Pasta de amendoim com frango, geléia de frango com torta de amendoim… (falatórios dos cozinheiros e garçons) Caralho, ora pois! Calados, pá! Quem estás a mandaire nesta cozinhaire é yo!
Adão e outros carregadores entram trazendo mais comida.
Adão – Ô, Manuel… esse povo rico só come frango e amendoim?
Manoel – Em Portugal, sim.
Polêmica entre os cozinheiros sobre o cardápio.
Manoel – Caralho, ora pois! Calados, pá! Quem estás a mandaire nesta cozinhaire é yo! (e não percebe que Mabel já entrou) Yo…!? Yo quando senhorita Mabel no estás!
Silêncio total. Mudos. De repente, climão. Mabel chama Manoel no canto.
Mabel – Quero falar com você.
Manoel – Cono yo?????
(…)
Fausto – É uma gotinha apenas. Eu garanto aos senhores que não irá fazer falta. Podem confiar. (trovão)
Batem à porta. Entra a elegante Mabel, esposa de Fausto, com seu filho nos braços que não para de chorar. Quer esganar o bebê, mas disfarça com simpatia.
Mabel – (entrega o bebê a Fausto) Esse urubuzinho não para de gritar. (os homens entreolham-se novamente) Por favor cavalheiros, não me levem à sério. (sorri) O meu leite secou. (sai)
Edna – Eu te imploro! Olha aí na lista, meu nome taí. É Kátia Sasso.
Genaro – (folheia a lista) Hum… Não tô achando, não.
Edna – Tem sim! É Kátia com K, não é com C. (enrolando pra enxergar algum nome na lista) E Sasso com um S no início, depois SS… (conseguindo ler um nome)
Genaro – (folheia a lista) Infelizmente, não.
Edna – Ah! Claro! Só se colocaram o meu nome de nascimento, que eu acho um pouco improvável… Kátia Sasso é meu nome artístico.
Genaro (desconfiado) – E qual é o teu nome de nascimento?
Edna - (bisbilhotando a lista de longe) Moacyr Brandão.
Genaro (grosso) – Moacyr é nome de homem.
Edna (bisbilhotando a lista de longe) – Não! Moacyr é nome de mulher, moço, eu juro por Deus! “A” Moacyr ou “O” Moacyr? É feminino.
Genaro – Sei. Arram.
Edna – Minha mãe colocou esse nome porque Moacyr era o nome de uma índia muito famosa. (Genaro entediado) “Moa” vem do latim “aquela que moi”, “Acyr” é do tupiniquim “a si mesma”. Mulher que mói a si mesma.
Fausto (com o bebê nos braços) – …Mas eu não estou sozinho! Quero chamar aqui os meus 12 companheiros, os braços fortes desse projeto. (aplausos) Graças à coragem, competência e união desses homens é que o meu sonho poderá se tornar realidade: a construção do prédio mais alto do planeta.
Aplausos e gritinhos de uhú!
Fausto - Um edifício, pasmem, de 256 andares. (cantarola para o bebê) “Tudo que eu quiser, o cara lá de baixo vai me dar…” (ri)
Os flashes dos fotógrafos misturam-se com os raios do lado de fora anunciando uma forte tempestade.
Mabel – (bêbada, interrompe o discurso) Eu proponho um brinde!
Manoel, trêmulo e pernas bambas, surge com duas lindas taças cheias com um vinho de cor jamais vista. Um vinho rubro.
Mabel – (para Fausto) Ao seu sucesso.
Eles pegam as taças e vão beber, mas Fausto hesita.
Fausto – Aonde está a babá?
Mabel – A babaca?
A babá surge constrangida e dá um tchauzinho para os fotógrafos.
Fausto – Afinal, ela também é da família. E não pega bem um pai beber perto de um filho. Amanhã ainda acusam-me de estimular o alcoolismo infantil. (e oferece a taça à baba) Beba você.
A babá arregala os olhos.
Fausto – Bebam vocês. As duas mulheres da minha vida. Quer dizer, três.
Tempestade. Um raio fulminante cai sobre o prédio e a luz do salão apaga. Ouvem-se risadas vindas do 13º andar. Pânico. Gritinhos apavorados. Os convidados, por um motivo banal, iniciam uma pancadaria generalizada que não perdoa mulheres nem crianças.
Fausto (ouvindo uma voz sussurrar em sua mente) – “Evite a confusão ao cabo do 13º andar, evite a confusão ao cabo do 13º andar, evite…”
Fausto, atormentado pelas risadas vindas do último andar, sobe até o arranha-céu em obras.
Mabel – (bêbada) Hum, olha só quem está aqui! (trovões e raios)
Encontra Mabel aos amassos com outro homem.
Fausto – (atônito) Como vocês foram capazes de fazer isso comigo?
Mabel – Amor, fique tranquilo que eu não dei… (gargalhadas)
Fausto, possuído pelo mais profundo ódio, tira um punhal escondido no paletó e parte para cima de Mabel.
Mabel – …Ainda!
O empresário é surpreendido pelo golpe mortal de uma pá velha vindo de uma terceira pessoa e seu corpo é jogado do 13º andar do edifício em chamas.
No dia seguinte alguns jornais noticiam que a babá morreu 13 minutos após beber uma taça de vinho envenenado.



